Paulo Gustavo: conheça a outra face do humorista

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Como você vai ver aqui, o artista multimídia é também um observador sagaz do mundo e da modernidade – é da vida real, afinal, que saem os personagens que ele cria e encena

Em 2005, quando se formou em artes cênicas na prestigiada Casa das Artes de Laranjeiras, ele já atuava nos palcos do Rio de Janeiro com a peça O Surto. Em 2006, veio o pulo do gato: montou o monólogo Minha Mãe é uma Peça, em cartaz até hoje. No ano seguinte, foi indicado ao prêmio Shell de melhor ator. Em 2013, sua Dona Hermínia, o personagem-título do espetáculo, ganhou versão para a tela grande, com mais de 4 milhões de espectadores. Hiperativo estreou nos palcos em 2010 e já foi vista por mais de 1 milhão de pessoas. Na série Na Estrada, transmitida pelo canal Multishow, mostrou todo o seu carisma e carinho do público em diferentes cidades brasileiras. Atualmente, o ator, comediante e roteirista se desdobra entre escrever a continuação do filme, com filmagem prevista para 2016, as gravações do humorístico Vai que Cola, também do Multishow, que virou filme com estreia em 1° de outubro, e o espetáculo 220 Volts, em cartaz na capital paulista depois de estrear no Rio em 2014. Ufa! Nascido em Niterói, Paulo Gustavo, 36 anos, não para – nem de produzir, nem de contabilizar sucessos.

Conversamos com ele no camarim, logo após uma apresentação de 220 Volts no teatro paulistano Procópio Ferreira. Usando o humor como ferramenta, os seis personagens são muito engraçados, é claro, mas também instigam reflexões sobre a nossa sociedade ao contemplar assuntos urgentes e atuais como excesso de vaidade, consumismo, desigualdade econômica. Assim, a entrevista acaba rumando para um lugar além do riso, mas que passa por ele: a crítica social. E é esse lado filosófico e compenetrado de Paulo Gustavo que você encontra aqui.

A importância do humor
“Acho que o humor pode funcionar como uma forma leve de crítica social. Minha personagem Senhora dos Absurdos, por exemplo, é preconceituosa, homofóbica. Mas essa não é uma questão simples. Aquele que está fazendo a crítica por meio do humor opera em uma linha tênue: até que ponto estou criticando um comportamento e até que ponto estou disseminando esse comportamento?”

Desigualdade
“Hoje sou um privilegiado, mas minha vida não foi sempre assim. Minha mãe era professora de escola estadual, não tínhamos luxo algum. Acho que é por isso que sou tão sensível a essa desigualdade que existe no Brasil. Eu estava na farmácia outro dia e a mulher se lamentou muito de um preço que nunca esqueci: 8 reais e 15 centavos. Ela acabou não levando o produto que queria. Vi que aquele valor faria muita diferença para ela. Situações assim me lembram o tempo todo do país onde eu vivo.”

O jovem de hoje
“Estamos vendo uma geração muito alienada, que não tem vontade de se informar. Há informação em toda parte, mas ela pode ser absorvida de forma superficial, e acho que é isso que está acontecendo. Os jovens de hoje estão mais vazios. Vejo uma geração de 20 a 30 anos desinteressada, sem uma visão de mundo consistente, sem amizades profundas, verdadeiras: a galera se encontra com outra galera, sai, troca uma conversa rasa e é só.”

Vício online
“Como tudo, a era da internet tem um lado positivo e um negativo. Atualmente, o mundo é cheio de relações sem amor, baseadas só em mostrar, em se exibir. Escutei uma entrevista da Elis Regina dizendo que homem que trepa mesmo é o da zona norte. O riquinho está na praia. Como falo no espetáculo, fazer sexo virou coisa de pobre: o rico prefere ficar no tablet, no smartphone! Exageros à parte, adoro ficar no celular, mas tudo pode ser mal ou bem utilizado. A internet é uma maravilha, o exagero é ridículo. Na verdade, isso vale para todas as áreas: paz, amor e, acima de tudo, equilíbrio. Precisamos ficar atentos, fazer o exercício de largar o celular e olhar nos olhos do amigo.”

Política
“Sempre falo que não entendo muito, porque não sei esmiuçar os bastidores políticos, que ministro está fazendo o quê. Mas faço política instintivamente através da minha arte e da minha sensibilidade. Tenho uma opinião em cima da coisas, faço política sem perceber. Se a Dilma está certa ou não, não quero entrar nesse mérito. Hoje em dia, as pessoas estão predispostas a achar tudo ruim, a criticar tudo e a não acreditar em nada. As pessoas estão muito agressivas e acho isso péssismo. Independentemente da opinião de cada um, todos precisam se respeitar, o ódio só gera mais ódio. Aliás, observo que quem é muito agressivo para mostrar seu ponto de vista geralmente não entende muito do que está falando. Quem entende consegue se expressar com educação.”

Mais amor, por favor
“Amor é fundamental. Minha família não é perfeita. Mas fomos criados com muito amor, sabe aquela casa em que todo mundo briga, se mete na vida do outro, mas se ama demais? O amor é revolucionário, assim como a arte, a educação. Posso levar o amor para todo mundo pelo meu trabalho, até nas minhas postagens na web. Dê uma olhada nas redes, tem tanto conteúdo vazio, oco. Se todo mundo se preocupasse em postar menos bobagem e mais passeios com a família, com os amigos, programas culturais, enfim, mais coisas interessantes e inteligentes, faríamos uma corrente do bem.”

Excesso de vaidade
“Minha personagem ‘Mulher feia’ faz graça das dificuldades de ser alguém fora dos padrões estéticos. Desde que o mundo é mundo, a mulher quer ser bonita. A diferença dos dias de hoje é que existem mais possibilidades: não gosto do meu cabelo? Existem mil tratamentos. Acho muito bom ter vaidade, mas com limite. Você não pode ser dominado pelo seu ego. Quem fica mergulhada nesse universo da beleza a ponto de ficar obcecada com a própria aparência não enxerga na vida algo maior. Mas o problema é a obsessão, gente, não é o botox. Você pode botar botox e só pensar na sua cara o dia inteiro, e você pode botar botox e continuar sendo uma pessoa interessante.”

Inversão de valores
“Hoje as pessoas estão muito doidas, né! Acho que o estilo de vida dos nossos tempos leva a gente para isso, para uma espécie de loucura generalizada. Ansiedade é o transtorno mais light, é o mínimo que alguém tem hoje em dia. É daí para TOC, depressão…  Rivotril virou Rinosoro: muitos levam na bolsa. Acho também que falta limite na educação dos filhos. Estou generalizando, claro, mas vejo muita criança de cinco anos mandando na mãe. Isso não está certo. Uma geração sem limite fica mimada e agressiva. Não dá para ter um meio termo na hora de educar as crianças, não? Vivemos em tempos de extremos.”

Minha terapia
“Como eu faço para não pirar? Subo no palco. É lá que eu potencializo o que tenho de bom dentro de mim. Acho que todo mundo tem que procurar esse lugar, essa salvação pessoal. Se não for atuar, pode ser escutar música, sair com os amigos, pilates, que seja! O importante é arranjar meios de botar os fantasmas para fora. Não precisa ser nada complicado. O simples da vida é o mais importante. O mais legal de eu ter ficado famoso é ver que a fama não significa nada se eu não fizer coisas que fazem sentido para mim e se eu não for um ser humano bom.”

Leitura
“Mais escrevo do que leio e tudo bem. Estou escrevendo Minha mãe é uma Peça 2, produzo demais. Mas não tenho o hábito da leitura. Parei de estudar na sexta série (atual sétimo ano) e fui fazer supletivo, que foi quase a mesma coisa que nada. Penso que é importante estudar, mas também acho que quem lê demais vive da opinião do outro. Sabe essas pessoas que sabem tudo do autor tal, do filósofo tal? O que se passa na cabeça delas em termos de ideias próprias? Sou interessado, curioso, muito observador, capto na vida e nos diálogos que ouço os meus personagens.”

Ditadura do cool
“Não sou de usar só a marca tal, ir só aos lugares tais e tais, fazer cara de blasé. Tem gente que faz de tudo para ser cool, descolado. Acho isso uma chatice! Para mim, moderno é ser maneiro, é ser um bom amigo, ser legal. Também acho uma babaquice valorizar só o que vem de fora, do estrangeiro. Também não acho que é legal o extremo oposto: valorizar o produto nacional só porque se é brasileiro. Eu amo a Beyoncé e a Maria Bethânia.”

Preconceito 
“O alcance da informação aumentou, mas o mundo não evoluiu. As pessoas ainda não aprenderam a lidar com a diferença. O que mudou não foi o ser humano, foi a internet. Antigamente, o preconceito estava escondido dentro das casas, das conversas na mesa do jantar. Agora, se alguém faz um comentário racista na web, milhares de pessoas ficam sabendo. É importante mudar de verdade, aceitar que não é todo mundo igual a você. Com meus personagens, gosto de fazer o preconceituoso perceber o preconceito dentro dele.”

Deus 
“Minha mãe sempre me criou de um jeito legal e tolerante. Ela sempre disse que mais importante do que seguir uma religião é se conectar com Deus. Tem um monte de beata ranzinza por aí. Umbanda, igreja católica, já fui a tudo. Não importa a religião, o importante é rezar e ser do bem. Ficar preso a uma doutrina e não levar os valores de verdade, dentro de você, é bobo, é vazio.”

Publicado por  Liliane Prata em Claudia
Fotos: Dado Marietti

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